junho 15, 2004

A cigarra e a formiga (versão actualizada)




Recebi este satírico texto por mail e não resisti a publicá-lo:

A formiga trabalha arduamente, debaixo de um calor arrasador, durante todo o Verão, construindo a sua casa e armazenando provisões e mantimentos para aguentar o Inverno. A cigarra pensa que a formiga é uma tola e ri, dança e brinca durante o Verão.
Chega o Inverno, e a enregelada cigarra convoca uma conferência de imprensa para denunciar a situação em que vive, pretendendo saber por que razão é permitido à formiga estar bem aquecida e alimentada enquanto outros sofrem com frio e fome.

RTP, SIC e TVI apresentam-se em força para transmitir imagens da pobre cigarra, completamente transfigurada pelo frio e pela fome, ao mesmo tempo que passam outras imagens da formiga na sua casa bem confortável e com a mesa cheia de boa comida. O país está chocado perante este contraste. Como é possível, nos dias que correm, uma pobre cigarra sofrer tanto? Durante dias não se fala de outra coisa.

O 1º Ministro, Durão Barroso, aparece num programa especial da RTP com um ar consternadíssimo, repetindo, vezes sem conta, que fará tudo o que está ao seu alcance para ajudar a pobre cigarra, a qual, como toda a gente deverá entender, está a ser vítima da má política dos anteriores governos do PS.

O Padre Melícias tem-se desenvolvido em esforços para angariar toda a ajuda possível, implementando um peditório, a nível nacional, para que a cigarra possa viver com alguma dignidade. Simultaneamente, a CGD abriu uma conta especial, onde qualquer pessoa pode efectuar um depósito, contribuindo, assim, para mais uma ajuda preciosa.

O secretário geral do PCP, Carlos Carvalhas, numa entrevista com a Manuela Moura Guedes, comenta que a formiga enriqueceu à custa da cigarra, resultado de uma gestão danosa do Governo Social Democrata, que sempre prejudicou os mais necessitados, e apela ao 1º Ministro para que seja criado um aumento significativo do IRS, através de um escalão especial, para fazer com que a formiga pague o valor justo em relação àquilo que ganhou.

Num movimento sem precedentes, Paulo Portas e o irmão Miguel Portas aparecem juntos, abraçados à cigarra, em todas as feiras e mercados.

Finalmente, foi criada uma Secretaria de Estado, dependente do Ministério das Finanças, e desenvolvido um programa chamado "Igualdade Económica e Acções Anti-Formiga", com efeitos ao princípio do Verão, o que obrigava a formiga a pagar os novos impostos com retroactivos. Como a formiga não estava preparada para pagar, a sua casa foi confiscada pelo Governo.

A firma de advogados do Vale e Azevedo, representando a cigarra, apresentou em tribunal um processo contra a formiga, por abuso e fuga aos impostos, tendo a formiga perdido a causa, sem qualquer hipótese de recurso. A formiga desaparece e ninguém mais lhe põe a vista em cima.

Em todos os canais da televisão, o Presidente da República Jorge Sampaio, com o seu entusiasmo habitual, anuncia que foi feita justiça e que uma nova era de integridade e equidade nasceu em Portugal.

A Lili Caneças, querendo tirar mais umas fotografias, organizou uma grande festa de beneficência, onde estiveram presentes todos os nomes conhecidos da política, artes, moda, teatro, cinema, música, desporto, etc. Com o dinheiro que ganhou de todos estes movimentos nacionais de solidariedade, bem como da venda de grande parte da comida da formiga, a cigarra vive dias com que nunca sonhou. Grandes festas, jantaradas, casinos, jogo, mais festas e mais jantaradas, oportunistas, más companhias, e o dinheiro desaparece depressa.

Entretanto, é noticiado em diversos orgãos da comunicação social internacional, o retumbante sucesso da formiga portuguesa num país desenvolvido, com reconhecimento, por parte desse país, pelos bons serviços e enormes mais-valias acrescentadas ao sector industrial e comercial.

A história acaba com as imagens da cigarra a comer o último bocadinho de comida que a formiga tinha armazenado, dentro da casa que agora pertence ao Governo, mas que, por falta de verba para proceder à sua manutenção, encontra-se completamente degradada.

A cigarra, entretanto, foi encontrada morta num beco, resultado de um incidente relacionado com drogas, e a casa, agora abandonada, é utilizada por um bando de delinquentes que vive aterrorizando o que, em tempos, era uma pacífica vizinhança.

Moral da história: Portugal no seu melhor!!



junho 14, 2004

Portugal desiludido


Eleições: falta de garra = 61% de abstenção

Euro2004: falta de garra = 2 - 1* para a Grécia


* No post inicial estava 2 - 0, o qual foi emendado graças ao coment atento de um anónimo. Imperdoável, esta minha gralha...mas a desilusão é tanta....

Como é que pude esquecer aquele golaço do nosso Cristiano?!

junho 11, 2004

Galeria de Junho - PABLO PICASSO (1881-1973)



Ninguém duvida que Picasso é o pintor mais importante do século XX, porém a obra de Picasso não ocuparia o lugar que ocupa se a todas as suas indubitáveis qualidades, não se juntasse o ter esvaziado o caminho que a pintura moderna vinha seguindo, pelo menos desde Manet e os impressionistas. O objectivo era encontrar um método de representação da realidade no quadro, coerente com a condição superficial do mesmo. Esse passo foi dado, precisamente, por Picasso.


Pablo Ruiz Picasso, nasceu em Málaga numa família vinculada à pintura. O pai, José Ruiz Blasco, ganhava a vida como professor de Desenho, primeiro em Málaga e depois na Corunha e em Barcelona.
Embora já na cidade galega tenha começado os seus estudos de Belas-Artes, foi em Barcelona, para onde a família se mudou em 1895, que completou a sua formação e iniciou a sua carreira de pintor.
Depressa se manifestou a excepcionalidade dos seus dotes artísticos, e a menção honorífica obtida por Ciência e Caridade, em 1897, parecia ssegurar-lhe um brilhante futuro como pintor académico.


Ciência e Caridade


Longe de seguir esse caminho Picasso integra-se na boémia barcelonesa de princípios de século. A capital catalã era então um centro artístico de grande vitalidade.
Picasso frequenta a cervejaria 4 Gats, onde conhece todos os artistas catalães dessa época.



Gravura do Bar 4Gats, em Barcelona


Em 1900 viaja pela primeira vez a Paris. Um ano depois faz a sua primeira exposição francesa e em 1904 instala-se no mítico Bateau-Lavoir de Montmartre, onde coabitou com outros grandes nomes da pintura.


Picasso no seu atelier de Bateau-Lavoir


Aqui viveu a primeira fase da sua obra, os chamados períodos azul e rosa, que se prolongam até 1906.

O interesse pela escultura ibérica e pelas máscaras africanas do Museu Trocadero indica uma nova evolução nas suas obras de 1906.
Nesse ano e no seguinte trabalha em As Meninas de Avinhão, ponto de partida para o cubismo.


As Meninas de Avinhão



A etapa de formação da linguagem cubista é quase uma história privada urdida em conjunto por Braque e Picasso. Só um grupo restrito de amigos, quase todos escritores, como Apollinaire, tiveram acesso a ela.

Os quadros de Picasso até 1909 continuam a ter uma clara preocupação com a forma, perfilando e regularizando os volumes.
Seguindo a lição de Cézanne, a pincelada ganha um valor, antes de tudo, construtivo, daí que Picasso renuncie aos contrastes de cor e os quadros tenham esse ar característico de herméticos tons cinzentos.


Menina com bandolim


Em 1912, a linguagem cubista já estava suficientemente madura para reproduzir a realidade mediante processos não naturalistas. O passo seguinte será dado ao incorporar um pedaço de vime numa pintura que representa uma natureza-morta. Nascem, assim, os papiers collés, primeira manifestação de collage, que admite a aplicação na tela de qualquer material estranho à pintura.
Este é outro contributo do cubismo para a arte moderna.
A pintura transforma-se num objecto, um elemento dotado de especificidade e autonomia.


Garrafa de "Vieux Marc"



Se o quadro admite diferentes materiais e texturas, pelas mesmas razões pode admitir o contraste de cor, assim, entre 1914 e 1921, os quadros de Picasso exibem uma rica paleta.
O cubismo encerra o seu ciclo e fica totalmente construído como linguagem artística de valor universal.

Depois da I Guerra Mundial, a cena artística parisiense, durante alguns anos regressa aos seus valores tradicionais, a que Picasso não é alheio. Assim, entre 1917 e 1923, alternando com os quadros cubistas, Picasso pratica um certo classicismo mediterrânico que recupera o seu antigo interesse pela forma em termos quase escultóricos. Nos finais da década de 20 e começos da década de 30, introduz elementos fantásticos nesse tipo de espaços pictóricos convencionais.


Banhista com bola de praia



Para os artistas espanhóis residentes em Paris, como Miró ou Picasso, as décadas de 30 e 40 são uma etapa de emoção contínua devido à guerra civil e à II Guerra Mundial. O apoio de Picasso à legitimidade republicana em Espanha aumenta a sensibilidade do pintor ao pulsar do seu tempo, que já mostrara de outras maneiras desde a sua juventude.
Os recursos do cubismo, como a sobreposição do rosto de frente e de perfil, são aproveitados agora com critério expressionista para evocar os monstros do horror bélico.
O eixo desta etapa é Guernica, pintado sob a emoção do bombardeamento devastador da pequena vila basca pela Legião Condor alemã.


Guernica



De entre a abundante produção picassiana do pós-guerra, duas séries de quadros ligadas entre si resultam especialmente significativas: Os Ateliers, de 1956 e As meninas, de 1957. Poucas vezes Picasso se entregou de forma tão concentrada ao puro prazer da pintura, demorando-se na vibração da cor sobre a tela.


Atelier de Cannes



Os últimos anos da vida e a obra de Picasso legaram à posteridade a ideia de uma vitalidade lendária, difícil de imaginar num homem que morreu com noventa e dois anos. A sua produção entre 1960 e 1973 é muito extensa e abrange todas as disciplinas, desde a gravura em linóleo e a água-forte até à pintura de cavalete e à escultura.
O denominador comum é a liberdade de execução e o liberalidade de géneros e maneiras.

O virtuosismo que acompanha Picasso desde os seus juvenis ensaios académicos, traduz-se agora numa autêntica celebração da pintura em si mesma.


Sites a consultar:

  • on-line Picasso Project

  • Artcyclopedia

  • Pablo Picasso: le site officiel

  • The Time 100

  • Picasso

  • junho 09, 2004

    Morte na Arena



    Parlamento Europeu




    Hesitei muito sobre a edição deste texto. Não sabia se deveria ou não falar aqui, no meu inofensivo blog, de política, embora já tenha aflorado o assunto em posts anteriores.
    Porém a morte estúpida, nua e crua, revolta-me sempre. E independentemente da cor política da pessoa que faleceu, tenho que me revoltar contra a ignomínia da morte.

    Morte, que neste caso não conseguimos dissociar da política, do jogo sujo, da troca de insultos, da vergonha que tem sido esta campanha eleitoral.
    Terá valido a pena?
    Os que ontem o criticaram hoje irão chorá-lo por certo, mas tudo isto é jogo, tudo isto é política. Os valores perdem-se na corrida ao voto.

    Quando pretendemos ouvir ideias, decidir o nosso voto, ouvimos deslustres, conspurcações.

    O povo não é estúpido ao contrário do que pensam muitos dos pseudo-políticos-intelectuais. O povo sabe o que quer. O povo quer saber o que lhe querem dar.

    Não estamos num jogo de bola onde o insulto ao árbitro é o mais barato. Onde as pobres progenitoras, que certamente não decidiram pela carreira do filho, são as mais insultadas.
    Aqui não estão em jogo pontos num campeonato. Aqui estão em jogo futuros, decisões que condicionarão a nossa própria vida.

    A tão proclamada abstenção, ganhará as eleições, certamente. Mas a culpa não será do povo ignorante, mas sim dos políticos sem causa, dos políticos cujos discursos não vão para além do ataque mesquinho às aptidões físicas dos que jogam na equipa contrária.
    Na falta de ideias, fazem-se críticas medíocres.

    Apesar de tudo, eu, dia 13 de Junho, irei votar, porque tenho consciência que só votando poderei dar a minha opinião. Só escolhendo poderei depois criticar.

    Espero que o trágico acontecimento desta manhã, sirva de volte face para esta campanha. Que a dignidade do momento, o decoro que se espera, sirva para acalmar as hostes e para termos, finalmente, uma campanha digna de Portugal e dos portugueses.





    junho 02, 2004

    GALERIA DE JUNHO


    Estará brevemente disponível neste blog a Galeria de Arte de Junho, dedicada a mais um grande pintor da História da Arte.

    Não perca!

    Eles andem aí...





    Parece que os verdadeiros, os extraterrestres, os alienígenas doutras galáxias, não os nossos com quem temos o prazer de privar todos os dias, andaram por aí a visitar-nos.
    Segundo esta notícia, foram vistos em diversas localidades do país.

    Encontrarão semelhanças no nosso país com o mundo deles?
    É que nós todos sabemos que temos um país do outro mundo...

    O circo continua...


    Continua o jogo de troca de ofensas entre as classes políticas.
    Como a bola estava do lado do PS, uma vez que lhe foi mandada pelo PSD, este rematou directo à baliza do PP, que por sua vez, agora a tem na mão e iremos ver para onde rematará.
    É o Euro antecipado.

    Parece-me é que o povo está farto deste jogo e está a precisar de programas mais abrangentes, mais culturais e educativos, começando talvez pelo princípio, ou seja, indicando-lhes o que é exactamente esse PE de que tanto se fala...ele há coisas...

    Quotas para homens? Bolas, como o mundo está mudado!


    Fiquei bastante apreensiva, ao ler esta notícia, hoje no Público.

    A luta pelos direitos da mulher tem sido uma constante desde meados do século passado, no entanto, agora que vamos ganhando terreno em certas áreas, começa a surgir a dúbia preocupação pela parte da classe masculina.

    De acordo com o que li no artigo, não me parecem os argumentos suficientes e válidos para que se criem quotas para travar a entrada de mulheres nos cursos de medicina.

    Parece-me sim que está instalado um mau estar na classe médica masculina, habituada a ser dominante, e que vê que o seu domínio irá ser ultrapassado pela classe feminina nos próximos anos.

    Pérolas do Bastonário da Ordem, no mesmo artigo:

    "O bastonário sabe que, "com o actual sistema de acesso aos cursos de Medicina, entram mais mulheres do que homens" nas faculdades. Para isso conta muito, em seu entender, o facto "de as estudantes terem mais juízo e estudarem mais do que os rapazes".

    E que modelo de acesso preferia Germano de Sousa? "Defendo que a nota de candidatura aos cursos de Medicina deve ser de 14 valores e que às notas deve juntar-se outro tipo de provas capazes de evitar que um aluno com notas excelentes e uma má formação geral possa ser um mau médico", esclarece.

    (...)

    "a maternidade afasta as mulheres do serviço e tira-lhes alguma da capacidade de doação à profissão".

    (...)

    Uma Medicina "cada vez mais no feminino", sobre a qual Germano de Sousa diz que é preciso "reflectir". "É necessário rever todo o sistema e é fundamental que o Ministério da Ciência e Ensino Superior, bem como o da Saúde, aceitem entrar na discussão", finaliza.


    Preocupações de um macho receoso...





    junho 01, 2004

    BLOGOPUB


    Não desligue, voltaremos dentro de minutos.

    É verdade, não resisti, continuo a vir aqui, a visitar os vizinhos.
    E hoje quero assinalar a presença na blogosfera de um refractário convicto. Um vizinho recente, que tem coisas interessantes para nos dizer.

    Até breve!