O primeiro que li foi Kafka à Beira Mar. Comprei-o pelo título. Achei piada alguém ter tido a audácia de escrever um romance sobre um personagem da literatura tão intrincado como os seus romances. Desenganei-me logo a seguir. Nem Kafka do processo fazia parte, nem aquele mundo era tão negro e burocrático como o que o romancista checo pintou. Aqui tratava-se não simplesmente de um mundo fantástico, mas também de um romance povoado pelas mais fantasiosas personagens com personalidades sempre únicas e vincadas. Kafka afinal era apenas uma delas. E quando digo apenas, não a quero resumir a algo linear, porque nenhuma das suas personagens o é. A partir daí li o que pude e não pude. Ainda não li todos, felizmente. Tenho ainda uma reserva de Murakami que me aguarda até à saída do seu próximo romance. E para além disso, são romances daqueles que podemos guardar para poder reler com prazer, descobrindo sempre novos caminhos. Não cansa, não dói.
Mundos complexos, personagens complexas, que vivem uma vida, contraditoriamente, quase ascética, embora povoada de prazeres, prazeres simples. A contemplação, as paisagens, o mundo urbano de Tóquio, as diferenças sociais e um mundo não tão perfeito e justo como poderíamos pensar que fosse o japonês. A música clássica, o jazz, a gastronomia japonesa (cuja desrição me leva sempre a crer que é muito mais saudável do que tudo o que possa ter comido antes), a organização, a limpeza quase obsessiva, são também agumas das presenças quase imperceptíveis no mundo Murakami, mas que invloluntariamente assimilamos e quase queremos mimetar no mundo real.
Os meus hábitos de leitura têm ciclos, é certo. Ainda há pouco lia Gonçalo M. Tavares com devoção, Valter Hugo Mãe com admiração, José Luís Peixoto com satisfação, mas Murakami já povoa o meu universo há muitos anos e continuo fiel, fã, humilde admiradora de um grandioso escritor que me fez descobrir uma cultura e um pensamento diferentes mas que afinal em tanto se assemelha ao nosso. Como qual, mesmo com histórias diferentes, com distâncias geográficas e culturas paralelas o ser humano se resume aquilo que é, um ser humano com as suas fraquezas intrínsecas. Enquanto ser humano identifico-me com essas fraquezas.
Se é um escritor de culto, como a imprensa internaconal o cataloga, então eu definitivamente entrei para essa religião, seita ou o que lhe queiram chamar. Mas ninguém me cobra nada, apenas recebo.
Escrevi esta nota quando Murakami mais uma vez foi indicado para o Prémio Nobel. Ainda não foi desta. Outros valores se levantaram. Também não terei, por enquanto, a oportunidade de conhecer a obra do recente nomeado, visto que as suas obras não foram editadas no nosso país. Mas algo se confirma no meio disto tudo, o império do sol, de facto, tem dificuldade em ganhar guerras e o mundo está a começar a tremer desde que a China acordou, tal como previu Alain Peyrefitte.